Como a comida com os dentes, como a colher com os lábios, como o prato com os dedos, como a mesa com os cotovelos, como os convidados com os olhos agitados e pesados. Como a agonia com o agito dos pés, como as horas com o tique-taque das minhas unhas, como o silêncio com mais silêncio, como a noite com o relógio, como a vida com o relógio.
Só não como o constrangimento coletivo. Duro de mastigar, grande de engolir, deixo-o à mesa para alguém com mais fome. E parto para o quarto. Um parto que não dói. É fluido, é vasto, é fácil, como uma assombração.
Lá a noite é quem me come.
A noite me abocanha com sua boca de frio, morde meus sonhos com seus dentes de escuridão até virarem uma pasta crua e pungente que me anestesia – a qual eu chamo de dor. Ela me lambe com sua língua de vento cinza e me engole com sua garganta de pesadelo. Lá dentro de seu estômago ela põe Morfeu a dançar uma dança entediante e cansativa.
E quando eu bocejo e pisco, no instante em que pisco, a noite avança e toma para si a minha flor rósea, com sua luxúria de lua vagabunda.
E ela arranca as pétalas da flor com uma violência que sangra um sangue prateado como seus olhos de supernova. Dói, mas alivia à medida que o sangue se esvai com minha angústia, minha timidez, minha melancolia de eclipse. E foi exatamente isso que fomos. Por um segundo fomos eu e a noite eclipse. Um preenche o vazio do outro. Sobrepostos, misturados, satisfeitos e completos.
E passou.
Tão rápido e intenso quanto eu pudesse notá-lo em mim, a me encher de alma em todos os poros. Um esvaziamento seguido de um preenchimento tão súbitos em suas curtas vidas que me deixaram suspenso no ar frio. Imóvel. Invisível. Eu comia vagarosamente, saboreava aquele sonho com todo o meu corpo, meu corpo de astro vago e bêbado, cometa esbranquiçado. Meu corpo de amor, inteiramente amor. Inteiro do amor mais falso, frívolo e efêmero do qual aquele amante que me estuprava era digno. Estuprava-me no meu próprio santuário, com sua vaidade ousada de astro-rei. Rei de nada.
Deveria dormir, mas o dia de ontem se projeta no céu com o mesmo desespero de anteontem. Aquele desespero de ser novo em qualquer aspecto – simplesmente pela razão de ser novo – que me enfadonha venenosamente. A noite corre da minha cama, mas sussurra com sua voz de estrela d’alva que voltará na outra noite. Voltará outra noite? Duvido.
Dei risada. Porque, quando ela voltar, encontrará todas as minhas portas e janelas trancadas em luz de luminária. Pois, à parte dos astros, das noites, dos dias e dos dentes, essa foi a minha última noite de núpcias com a noite.
- Lá estava eu a ler versos de Neruda e a "assistir" coisa qualquer na televisão e esse texto começou a brotar na cabeça. Quase exatamente do jeito que está aí em cima. Não sei de onde veio ou pra onde vai. Talvez seja tão interior que se faz irreconhecível para mim. Mas é filho e aqui ele está na maternidade. Beijos para vocês que me visitam nesse meu hospital com tanto carinho!
3 comentários:
Ual! Esse é não só o texto mais maduro que já li seu, mas também o mais poético... Você é grande Marco!
Você escreve tão bem.
*_*
Lindo..Lindo..
É, Marco, teus textos cada vez mais seus. Parabéns! (:
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