quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Não quero esse copo

            Não sei o que quero e isso que ando querendo eu já nem sei mais o que é. Desconheço a forma mutável que já não é mais, pois passou. Desconhecimento tão fulminante que me faz querer não querê-lo mais. Pronto, já não quero e parece até que nunca quis, em suas loucas inquerências e incoerências. Deve ser aí onde jaz o saber de se querer as coisas: querer é para desquerer no momento seguinte, talvez querer no momento seguinte a este e, depois, não querer mais. Para o bem da saúde, é melhor que não se queira uma coisa mais do que duas vezes. Mas quem já um dia soube disso com o coração?
            Então o que fazer se eu quiser querer de novo?
            Talvez eu deva querer o que todos querem, mesmo que o desquerido seja o que eu mais quero. Que mal há em querer querer o sol?
            Quisera eu entender essas querências. Ou talvez não queira – para quê entendê-las se, de tão passageiras que são, não se fazem entendidas por ninguém? Egoístas! Apontam-nos o leste como o quem aponta o norte, com suas existências tão breves e vívidas que chegam a roçar meus poros. Vestem-se de objetivo único e depois somem – é um copo cheio que caiu, quebrou-se em cristais e espalhou seu conteúdo no ventre do piso, com fragmentos de consciência e poeira. Não dá para beber sem se cortar. Não dá para pegar nas mãos sem se cortar. Não é possível sequer olhar sem se sentir cortado. É querência derramada. Resta virar as costas, pedir outro copo, bebericar de pouco em pouco e tomar cuidado para não deixar cair no chão concreto de realidades.
É o abandono no meio de um caminho que começou a ser andado. E abrir atalhos entre essas estradas é tão martirizante que quero deixar que outro querer faça isso por mim, me guie cego para depois me perder. É isso: entre atalhos e querências, quero me perder por culpa de outrem, até mesmo de uma querenciazinha inocente. Não quero a responsabilidade de me perder por mim mesmo.
É porque não quero ver meu copo cair no meu chão frio, o conteúdo, meu sangue, espalhado por entre cacos de felicidade. E essa é uma querência que eu nunca quis e não quero que ninguém queira para mim.
Ah, estou farto de querer o impossível!


- Aí um filho diferente dos meus filhos "convencionais" (pelo menos eu o vejo assim). Não tenho nem marcadores onde colocá-lo. Nasceu tão espontâneo que foi rápido. Um rápido gostoso. Espero que gostem também. Obrigado a todos que me apoiam, sem vocês eu não estaria aqui, de verdade.

3 comentários:

EdrD disse...

adoreeei, vs escreve super bem ^^

Gustavo Paiva disse...

Um texto vago, mas nem por isso menos interessante. Esse não tem a sua cara, mas nem por isso é adotado.
É bom experimentar novas formas de escrita, mesmo que inconscientemente.

Reticências e cia. disse...

Marco o jogo de palavras que vc fez durante boa parte do texto, em especial no primeiro parágrafo me cansou... faltou algo nele ñ sei bem como explicar. Talvez um foco, como já disse Gupaiva.
P.S.: Fazia tempo que eu ñ vinha por aqui, vou voltar mais vezes.
Natan