Querido: sinto a certeza de que voltarei a enlouquecer mais vívida do que nunca, suas unhas arranhando cada terço de minha pele, numa agonia e angústia só não maiores que minha dor de senti-las. Sinto que nós dois não poderemos passar por mais desses momentos difíceis, nos quais você arrisca a maior beleza da sua lucidez para me manter ereto na minha lúcida corda bamba. E eu sei que, se eu cair mais uma vez, eu não poderei me recuperar.
Eu comecei a ouvir vozes, a ver alucinações, a sentir calafrios cortantes, todos me acusando dos mesmos pecados que você, tão nobremente, já perdoou. E eles não mais me permitem total concentração na minha arte, que nos mantinha afastados, mas íntegros, seguros em nossos casulos e distâncias.
Então estou fazendo o que parece ser o melhor a fazer: quebrar o meu casulo e não mais esperar que ele apodreça ao lento pesar dos tempos. Pular dessa corda bamba rumo ao abismo e não mais esperar que um sopro de acaso me derrube numa hora, talvez, inapropriada. É que não temos tempo porque nunca demos tempo. Então sejamos rápidos.
Você me deu a maior felicidade possível, não aquela que nunca acaba, mas a que sempre começou. Você foi, em todos os sentidos, mais do que qualquer outro poderia ser. E mais do que ser, você quis ser mais, quis ir além. Além até de si.
Sei que estou arruinando egoisticamente a sua vida – veja pelos muitos “minhas” no começo dessa carta. Você estava certo quanto ao meu egoísmo e, talvez, eu esteja fazendo isso porque seja mais fácil para mim e não para nós. Julgar a mim mesmo numa hora dessas é de um alívio que eu não poderia supor, deixar pesares e monstros num pedaço de papel como este, que não irá comigo depois que eu –
Sei que estou arruinando a sua vida e que, sem mim, poderá voltar a trabalhar. E voltará. Eu sei. E isso me conforta e me faz sentir-me mais certo diante disto que faço. Veja só, não consigo sequer escrever adequadamente, como a ocasião propõe, logo isso que fui dito fazer tão bem. Sempre enfadonho e cíclico e delongante, deve ser uma tortura para você me ler agora, tortura pior do que me ver depois que eu –
O que quero dizer é que eu devo a você toda a minha felicidade, aquela escondida nas minhas brechas de sanidade e que eu mal deixava transparecer em sorrisos – e nem sei ao certo porque fazia isso. Você tem sido inteiramente paciente comigo e incrivelmente bom durante todos esses anos, com uma devoção tamanha que me faz sentir vergonha de mim mesmo agora.
Tudo está acabado para mim exceto a certeza da sua bondade. E essa deve ser a única certeza viva desse mundo.
Tomei essa decisão do momento em que vi que seu trabalho estava afetado por minha causa. Não podia continuar mutilando a sua alegria de viver e, para que isso se fizesse possível, queria ter terminado isso de forma menos dramática e dolorosa, mas não houve como. Queria que não houvesse cartas e eu simplesmente tivesse desaparecido no ar que ainda respirava e nas memórias que você respirava, mas ainda não era feito de inexistir. Queria ter pedido desculpas, mas que adiantaria tê-las pedido quando o que fiz era a única opção que tinha?
Eu não creio que duas pessoas possam ser mais felizes do que nós dois fomos.
- Quem viu "As Horas" sabe que a base desse texto é a carta de suicídio de Virgínia Woolf no começo do filme, que eu achei simples porém fantástica. Deu vontade de trabalhar em cima dela e saiu esse filho. Espero que gostem.
2 comentários:
Gosto de saber que eu te fazia companhia enquanto voce escrevia ela... eu adoro o filme e sua versao ficou muito bonita, faz a gente pensar em todas as decisoes que ja tomamos
Como sempre me fazendo pensar.
Acho seus filhinhos lindos viu?
Seu lindo.
<3
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