quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Olhos enxutos

         De olhos enxutos, a contemplar o vazio.
         Era um totem no canto do quarto mal-iluminado de abril.
         De olhos enxutos, tornava a sentir o que ninguém mais sentia. Era assaltado momentaneamente pela ideia de que o amor viria, de asas. E pousaria os pés sobre o tapete da sala de estar. Vermelho dos telhados das casas das serras. Lhe estenderia a mão tal qual pata de rei. Não para beijar em reverência, mas para levar dali, daquele inferno que lhe tirara a consciência das flores, do furta-cor, do furta-beijos. Beleza que encheria de cores o outono.
         E tornava a chorar, e tornava os olhos enxutos.
         Sono encasulado de teias.
         Sonho enxuto dos floreios shakespearianos. O pouco sangue que lhe corria nas veias não lhe permitia ousar grandes anseios. Sonho enxuto da aridez do outono. De matizes terrosas, bela sépia. Sonho enxuto máximo dos olhos enxutos enrugados que não mais dançavam procurando pelas estrelas da infância. Sonhavam, estáticos da morta eletricidade dos dedos.
         Sono encasulado de medos.

- Engraçado como um texto inteiro pode nascer de uma só frase. Experimentei pela primeira vez essa sensação com esse filho novo aí em cima. Espero que gostem. Obrigado pelo apoio imensurável. Aproveitem essa quinta-feira treze, porque, à meia-noite, por um milésimo de segundo, ela será sexta-feira treze.

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