Repetições. Uma sucessão de repetições. Como quando colocamos um espelho perante outro. Infindáveis reflexos de moldura vazia. É isso que somos. Dois espelhos, sem face, só desejamos. Sem olhos para ver o que refletimos, se tivéssemos sentimentos, só poderíamos tentar sentir. Sem alma para mergulhar no frio e vácuo sonho de vidro. É isso que somos. Dois reflexos, sem nome, sem sexo, só inveja. Sem essência, só o veneno que nos cospem. Eu te reflito e você me reflete, refletindo o que antes eu refleti, ou seja, você mesmo, cometendo seus piores medos. Sem surpresas, sem opções, automática agonizante agonizamos – sem bocas para pedir socorro. Em silêncio, nada mudamos. Por toda a eternidade mudos, imutáveis, inertes em nossas plásticas imagens, fossilizados ao chão sem ter a oportunidade de, sequer, se banhar com a primavera que nos chama lá fora – como a ouviríamos sem ouvidos? Sem saber o gosto do vermelho das rosas em nossos vidros. Presente apenas a ausência escura do nada entre nós. Piores que o nada, somos o reflexo de nada no meio. Meio infinito no tempo – para que jamais esqueçamos de nossas condições de espelho. Espectros (ou reflexos de espectros?) que assombram um segundo não notado por ninguém.
Ninguém viu os espelhos. Ninguém lhes deu um reflexo de vida, de vaidade. Para sempre espelhos de si. Reflexos quebrados, inacabados – e infinitos.
Um dia estarão opacos de tanto refletirem a si mesmos. E, uma vez que nunca viveram, não morrerão. Deixarão de existir. Perpetuamente.
Desculpem a demora pra postar, mas vestibular suga toda e qualquer inspiração. Mas passou. Eu sei que desse texto, pouca gente vai gostar. Saiu mais cru do que eu queria, e eu tentei dissolvê-lo em meus conhecimentos, mas em vão. Sei que tem gente que vai pensar que esse texto foi inspirado nelas, quando, na verdade, surgiu de um momento rápido - e foi rapidamente escrito. Por isso cru. O que faria um escritor se não pudesse depositar o mais puro do que sente nas suas páginas? Entendam. E obrigado pelas visitas e apoio.
Nenhum comentário:
Postar um comentário