domingo, 2 de janeiro de 2011

Glorioso batismo do frio


           O batismo do frio é de uma palidez azul e doce.
         O frio é um véu do tamanho da imaginação. De seda fina e fantasmagórica, frágil e áspera. Parece glacial, mortal e, ao mesmo tempo, aconchegante - por ser véu, envolve, aconchega e não consegue ser frio cruel. É frio de iniciação. Não é de choque elétrico. Ele cresce dentro, às vezes rápido, mas sempre gradativo. Espalha-se, aconchega e, então, se esvai. Pulsante. Ressuscita dormente o que toca. Afia e hiberna – inicia para o que vem a seguir.
         Nasce preguiçosamente o primeiro sol do ano. Quase se pode ver suas bochechas rubras de vergonha, seu esforço em ser o nascer mais bonito. O recém-nascido sol é inocente e glorioso tal qual um imperador romano de dez anos. Ao surgir, ele nem precisa empurrar as nuvens, que fogem o mais rápido que podem, esguias e embaraçadas ante a sua presença – as nuvens escuras, pequenas cicatrizes no véu de frio que, antes azul, agora rosa, laranja e, por fim, amarelo, pintado pelo astro. Amarelo que só pode ser descrito pela essência mais sublime da estrela. Amarelo próprio dele, amarelo-solar. Um amarelo de brincar entre os dedos, de faixas vívidas na face. É possível sentir o som amarelo. Leve, suave e repleto. É vento – e o vento é mero coadjuvante, quando notado. Ecoa em cada um dos poros, cobre o arco-íris dos olhos semicerrados, banha a terra.
         O amarelo é calor e o calor é visual. O calor se enxerga, como fosse o sol de um gelo amarelo. Está na luz que fez do véu de frio, macio, da breve era glacial, era do sol. Calor tal brilho do falar dos anjos. O calor desse – e somente desse – sol marca o fim do batismo do frio e o início de um caloroso ciclo.
         Sinestesicamente memorável – uma memória com cor. Memória de um momento em que Apolo fora o deus dos deuses.

- Tive a graça de ter um momento assim. Difícil descrever a sensação, mas gostei de rir feliz. Valeu a pena passar pelo batismo (e sair com a garganta ruim). Se todos os nascer do sol forem assim, então o maior pecado da raça humana é dormir e não vê-los acontecer. Desejo que vocês tenham desfrutado de um segundo semelhante – ou que o façam em algum dia de suas vidas. Que 2011 tenha a glória de tal sol!

2 comentários:

Gustavo Paiva disse...

Em 2009 e 2010 eu vi o sol nascer, os primeiros raios. Desse ano não vi. Não vi porque dormi, não senti vontade. Talvez isso mude tudo no decorrer do ano. Ou não. De qualquer forma, conheço a sensação aqui descrita. É de uma lindeza sem fim.

Saudades de ti. <3

Nadie disse...

Magnífica descrição.