Acordei sob o manto leitoso da Via Láctea, que punha seus filhos mais novos para dormir, deixando o mais velho a brilhar bucólica e pasteurizadamente o dia.
E percebo que, naquele dia, o tempo havia pintado uma data em hieróglifos jazentes debaixo das cobertas dos espaços – rasos. Havia pintado um aniversário de alguém, irreconhecível e estupefante.
A especialidade que deixamos morrer no comum dos atos e fatos falhos (ou não). Filhos do tempo que, para nós, parou ontem. Sem dar sinais, sem avisar, parou quando mais queríamos que corresse. Parou sem avisar ao relógio, que tiquetaqueia estupidamente atrás de mim. Parou sem avisar ao Sol, que desvela sua mão cremosa por detrás dos montes. Parou sem avisar aos astros, que foram dormir quando ainda é noite. Parou sem avisar a você, que foi viver. O tempo só avisou a mim, que morri esquálido e sufocado, espremido entre uma fenda de segundo sobre a minha cama.
Um segundo de bronze. Não o bronze dos guerreiros do Peloponeso. Um segundo de bronze de sépia.
Bronze dos álbuns envelhecidos. Do barro das casas lendárias da Galiléia.
Bronze do nascer do sol quente das manhãs sem vida de domingo.
Uma memória vazia de lembranças e esquecimentos, livre de pensamentos e sentir.
- E eu achava que não escreveria nada até o fim do ano. Achei entre os segundos infrutíferos de domingo um livro de Quintana, que logo tratei de devorar ali mesmo e que muito me inspirou para escrever esse texto. Deu-me outras dimensões. Se eu soubesse quem Quintana houvera sido... Quem não o conhece, conheça-o. Deem-lhe uma chance. Eu não me arrependi. E feliz ano novo (de novo).
Um comentário:
Eu juro que queria te observar nos momentos de inspiração, deve ser lindo, arrebatador.
Compartilho do seu tédio de bronze.
Postar um comentário