Noite cinza, noite calada. Noite insone como tantas outras. As palavras jorram cascata afiada, sangram o papel com uma felicidade inquietante. A fraca luz vinda do mundo de fora projeta, através da janela, na parede acima de minha cabeça, sombras que simulam as barras de uma cela de cadeia. Análise pérfida das malditas luzes, que mais uma vez acertam: prisão de alguém, de você, de mim mesmo, deles, de quem? Quero negociar a pena, a liberdade condicional, não. Antes quero saber como vim parar aqui.
Revoltado com coisa irrelembrável – coisa nenhuma –, meu transe noturno é interrompido por palavras longínquas. Frias, cronometradas, mas luz que irrompe a umbra com certa dose mínima de carinho. Com “inho” mesmo, recurso basilar a fim de adicionar infantil doçura à verbalização. Eu me lembro de nós com planos e sonhos. Hoje a concha é sua única amiga, sai dela apenas quando provocado e para pinçar o provocador. Penoso crustacídeo fadado à solidão da pedra preta dos arrecifes e à agressividade das ondas selvagens. Digno da roda do Carma pela infindabilidade dos erros e vontade tétrica de piorar. Julgar não parece adequado, mas o cansaço e a tristeza tornam a razão tão míope quanto os olhos cerrados que se esforçam para ler as pequenas e rasas letras no sujo bloco de notas.
Dizem que um bom escritor é feito de sangue. Vejo isso como sendo a única explicação razoável para essa sua penitência constante, autoflagelação sado-masoquista. Também pode explicar o porquê dessa saída em massa de tantas páginas nessa noite, agora, de poucas nuvens e lua nova. O que se há para olhar numa noite frígida de beleza como essa, se a luz trêmula da cidade não permite alcançar as estrelas com os olhos? Se nem o céu inspira, então é chegado o ponto sem retorno. E como ninguém retornou para contar o que se deve fazer ao chegar nele... Sinto-me náufrago. Sensação bastante familiar.
Os fantasmas sussurram ao ouvido, tentam instruir, mas o ser está tão surdo do egoísmo no volume máximo que não há, sequer, canal fático.
A luz acabou. É nessas horas que eu gostaria da companhia de um abajour.
- E, com vocês, meu primeiro filho texto. Nasceu de uma noite até meio engraçada... Não havia nada que me tirasse o sono, a não ser a vontade de escrever. Não sei o que me deu, mesmo, quem sabe foi o bloquinho que não parou quieto. Nunca fui de escrever esse tipo de texto e, agora, quem olha pra mim pensa que eu escrevo há anos. Se tornou mais que um hobby de férias, um vício. Bem, compartilharei desse vício com vocês, leitores e espero que vocês apreciem. Amanhã viajo, mas, como estou com uma certa margem de folga no que concerne a número de textos, bem... Vocês devem contar com mais um ou dois nesse fim de ano. Comentem, comentar é sempre bom, não sejam tímidos! Já falei mais do que eu queria... Au revoir!
3 comentários:
Teu filho é lindo. -rs;
Gostei da brincadeira com o título.
Gostei da frase que vc colocou em destaque.
Gostei do texto, você sabe. Ele me inspirou.
Gosto de você. Aliás, amo você.
Seu besta. <3
só queria saber por onde você anda. minha time não é mesma sem o @marc_says. saudade amigo, bj.
Bem vindo ao mundo de melancolia que enche o meu peito a cada respirar.
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