domingo, 26 de dezembro de 2010

Regra dos terços



Nossas fotos jamais foram perfeitas, mas eram as mais bonitas. A perspectiva, acidental e convenientemente desproporcional, as cores, erradas e combinavam, o foco, que sempre desajustava na captura da máquina, embaçando o que havia de mais feio na cena e primando os seus olhos. Ah, os seus olhos castanhos, eles nunca estavam nos pontos de ouro e sim sempre um pouco acima, onde o que estava na frente da câmera poderia ver o que se encontrava atrás dela.

Mais tímido do que você, só eu, que jamais aparecia sozinho no enquadro. Você não queria registros, apesar de eu sempre conseguir desviar sua atenção da câmera com sorvete – você adorava os de chocolate – criando, assim, as suas fotos mais espontâneas. Ou desviava sua atenção comigo mesmo, capturando os nossos momentos – e movimentos – espontâneos (isso quando eu não perdia o foco).
Parei de seguir a regra dos terços quando te conheci. Não havia regras. Não era mais um terço para isso ou aquilo. Era tudo, era inteiro, inteiramente entregue – ao acaso, no caso. Não havia o jogo da velha que divide a imagem. Não havia jogos. Nem divisões. Os terços brigavam pela beleza de cada pedaço nosso.
Finalidade de trocar as lentes não havia. Todas elas nos enxergavam da mesma forma. A câmera atrasava o temporizador em mil segundos a fim de contemplar melhor aquele instante. E, se o tripé pudesse andar, correria para o centro da imagem. Só queria que a função para baixas iluminações não funcionasse. Às vezes, eu e você desejávamos o escuro –
- Sozinhos.
Hoje eu caminho pela sala e vejo o único retrato que sobrou, curiosamente o único retrato meu. Eu nunca deixava você mexer na minha máquina. E eu não sei até hoje onde você aprendeu a tirar fotos. O enquadramento está perfeito, o foco funcionou, a perspectiva foi bem observada enquanto as cores fluem harmônicas. Você foi fiel – pela primeira vez – à regra dos terços. Perfeito. Mas está feia. Fria. O sorvete havia derretido. Meus olhos, que nunca foram atores, não enganavam, não sabiam ser felizes. E, prestando bastante atenção, é possível notar tremor ao longo da minha silhueta. Eu me mexi – como se quisesse fugir daquele lugar, daquele tempo.  Desconheço o porquê de manter a foto no centro da casa, tal qual altar. Talvez sirva de manual de fotografia. Talvez seja manual do que não deve ser (feito).
É, você fora meticulosamente profissional.
Eu fui somente amador.
- Com muito sofrimento é que sai o segundo filho-texto. Semana corridíssima de festas de fim de ano e, pra piorar, longe do aconchego do lar, ao vivo de uma lanhouse arcaica. Esse texto começou com um propósito e terminou com outro completamente diferente, mas que me agradou (do contrário, nem estaria aqui).   Falar de uma paixão minha como a fotografia foi um fácil prazer. Espero que vocês  sejam apreciadores de tal prazer assim como eu e usem-no para registrar essa bela  (e  triste) época que é o fim de ano. Boas festas e feliz 2011 para todos!



2 comentários:

Gustavo Paiva disse...

Você vai se tornar um monstro da literatura. Seus primeiros textos já nasceram com a sua essência.

Unknown disse...

Gostei muito mais desse texto que o primeiro. Significou muito mais para mim.
O texto dividido em duas situações. A primeira, cheia dos erros técnicos, falhas não-programadas, mesmo assim, feliz.
A segunda situação parecia perfeita para constar em um manual do que não se precisa de manuais, e justo por isso, falha, errada na prática e infeliz.

Gabs (: