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sábado, 30 de abril de 2011

Confissão - como se eu fosse deus

            Eu já não sou o que me forma ou tão somente isso. Eu desaprendi a função do meu nome. Busco-me no que me foi tomado e no que ainda não me foi dado. Já não me acho no presente ou talvez nunca tenha me achado. O presente não existe, por isso me sinto no futuro. Projeto-me para o seguinte, o que eu sei que é, foi.
            Não posso dizer que andei muito por aí, mas estive em vários lugares, com várias pessoas, dentro delas – apesar de que poucas estiveram profundamente em mim para, de fato, estarem em algum minuto do meu tempo. Vi muitas coisas, me maravilhei de algumas, todas as vezes sem muita cor nos olhos – me horrorizei de outras e em todos os estágios do horror, sempre diminuído diante da miséria alheia ou da minha própria.
            Hoje eu não sei o que faço. Será que fico ou que passo? Nada me salta aos olhos ou inquieta  minha respiração. Tudo parece chato ou fácil ou ainda previsivelmente triste. Como se eu fosse deus e vocês os humanos e eu visse que no futuro de cada um há somente o pranto, mas que, independentemente de qualquer coisa, eu passarei inalterável. É uma segurança tão grande que se faz falsa no mais primeiro segundo de conforto. Só o que eu escuto são repetições e depois um grande eco reto. Já vi tudo isso e sei que, lentamente, passo para o outro lado, mesmo que de forma involuntária, com um contra-sorriso nos lábios.
            Me desculpe por você ter visto ou ouvido aquilo – aquele eco, aquela mancha. Mas hoje eu consigo finalmente dizer não para você. Dizer nada.
            Em queda livre. Completo. Eu só tenho uma falha: eu não sei para onde caio.

- Antigo. Postei na saudade. Passando pela maior brainstorm da minha vida.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Conde

            À noite, me exorcizo. Sozinho, calmo e confiante de que sou mais glória do quem que me habita em minhas fendas e buracos escuros de medo e solidão. Peço às divindades e aos orixás não sorte. A sorte é acaso demais para uma vida que caminha por areias de rolar-dados e girar-roletas de felicidade. Quero mais dois minutos de lucidez para ser capaz de sentir a luz do sol sem precisar fechar os olhos e quero a compaixão de quem olha por mim. Compaixão de quem lida com algo mais frágil que um humano. Atravessa despido por uma nevasca, atrás de que? É tanto vento, tanto gelo, tanto frio que ninguém jamais veria além da intempérie, a bonança.
            Até ontem eu me desfiz em sangue para você beber, vampiro de mim e tão somente eu. Esse sumo tão doce que te enjoa no fundo da alma vã e das palavras. Se contemplava o teu rosto a vomitar em mim tudo o que sou, tentei fazer-me mais saboroso, de modo a ser o melhor banquete de teu mundo. Era o que eu queria. Já que não teria o seu amor, que tivesse os seus dentes cravados em meu pescoço, a sua luxúria sombria a me corroer as veias, tóxica – e indescupavelmente deliciosa.
            Tinha medo de me tornar vampiro de ti.
            E então parou. O sangue acabou? – finalmente.
            Agora voa atrás de novo sangue. O que sou se resume em minha carcaça flácida de vontade e meus farrapos sujos que já não me servem. E não há desespero em minha pele. Recolho os cacos que sou, olho o mais alto que meu arquétipo de esqueleto permite sustentar e, num espaço triste de sábia loucura, vou atrás do que me tomaram: meu sangue. Cada gota, cada vermelho. Mas não quero do mesmo. Quero sangue novo, mesmo que para isso eu me vista de vampiro de outros, eu me vista de você! Quero sangue novo para ser à prova de tudo que me fez sangrar. E um dia, vampiro que voa e me abandona, um dia eu te amarei por ter me feito fênix de sangue. Mal saberia eu que veria toda a plenitude de tua humanidade e me descobriria surpreso ao saber que ela se faz tão vasta a ponto de me vestir da cabeça aos pés melhor do que a ti.
            Então fecho os olhos e vejo que o que me espera depois da nevasca crucis é um cálice de vinho tinto.

- A última gota. Um parto tão limpo, tão fácil e sem sangue. Não há mais em mim, acho. Veremos se haverá um dia. É o filho mais despido de tudo e limpo que já nasceu. Tanto que se parece comigo mesmo. Espero que entendam. Talvez demore a surgir outro texto, embarco em viagem em menos de 4 dias. Mas a demora sempre traz consigo novas e belas inspirações e não será diferente dessa vez. Muito obrigado por tudo, leitores!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Confissão


            Meu querido amor, meu amargo amor. Aquele que jamais fora tocado, aquele que ninguém viu, ninguém tinha olhos de ver dentro. Seguro a flutuar acima das cabeças dos picos, inseguro no seu ritmo flutuantemente certo das coisas tolas. Meu querido amor, você esqueceu o copo de alegria com quem brindamos aquele dia, aquelas tardes, aquela cama, aquele jogo vazio. Você esqueceu suas vestes de elfo leve, livre, leve-as daqui para não terdes de andar nu pelos vastos campos das redondezas desperdiçando o teu mel.
            Meu querido amor, meu coração não aprendeu nada com a tua liberdade, ele ainda se amarra a certos pilares milenares dos quais não ouso soltá-lo. Meus olhos não aprenderam a se fechar quando você sorri e, por isso, eles sofrem com o parto doloroso da indiferença gritante que fingem. Aliás, fingir tornou-se o meu único último recurso válido e, quando o fiz, fui vil, mas só o fiz por fazer-me selvagemente instintivo e instintivamente covarde.
            Não sei ao certo porque te confesso essas coisas, meu querido amor. Vejo-te ir ao porto embarcar em outros muitos veleiros, todos sem rumo algum. Pois foi na minha caravela, que tinha rumo certo, onde naufragaste. Mas não estás morto, jamais estiveste, tens as sete vidas de um gato vezes setenta e soubeste nadar para a superfície onde o teu vento brisa e a minha água para.
            Então voa, meu querido amor, vai até onde o céu te alcançar! Mas lembra-te de voltar para ver os mortais que ainda o amam. Sem gaiolas de ouro, cante para mim aquela música que você me fez... Quando nos casamos.

- Demorei, eu sei. Mas cá estou. Escrevi muito esses dias, boa parte dos textos incompletos. Desabafos, confissões. Como essa aí. Por isso não se surpreendam ou se zanguem se vierem "Confissão II", "Confissão III", é só questão de eu achá-los maduros o suficiente. Maria Bethânia tem mais que um dedo nesse texto, aliás é ela quem tem me posto para dormir. Quem quiser tentar não se arrependerá. Obrigado a todos que leem!